segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Horta Comunitária: um tesouro do Geisel

Muito verde na mesa, com preços acessíveis e tudo plantado com amor


Gabriel Andrade
Lívia Reginato


Na foto, "Seu Mário" - um ícone da comunidade - vende verduras fresquinhas a Dino, morador do bairro há 36 anos (Foto: Lívia Reginato)


A horta comunitária do Geisel existe há 33 anos e é a primeira horta comunitária de Bauru. Um tesouro dessa comunidade que mantém as mesas verdes com produtos orgânicos, colhidos na hora e com o preço muito abaixo dos preços de mercado.

Mário Passeto, "Seu Mário", com 84 anos de idade, terá 22 anos cuidando da horta em novembro deste ano. Os moradores são unânimes: "Todo mundo conhece o Seu Mário, ele planta tudo com amor" – conta uma moradora. O senhor exibe uma saúde que muitos jovens invejariam, é outro benefício da horta: proporcionar uma atividade terapêutica e saudável aos aposentados do bairro.

Ao som dos passarinhos, Seu Mário nos conta que os canteiros são divididos entre os aposentados e que, há 30 anos, a divisão era feita por famílias, porém essa forma de organização mudou recentemente. Para ele, estar em contato com a terra é uma terapia que ajuda a manter corpo e mente com saúde, já que na juventude era agricultor e sempre passou a vida mexendo com a terra.

"Já trabalhei em fazenda e nunca mandaram eu voltar para trás, porque eu sabia o que eu fazia, eu levantava cedo de madrugada ia buscar vaca no pasto, era sempre corrido viu, já plantei café, mamona, milho, eu fazia tudo, eu sei como é que faz até hoje", relembra Seu Mário.

Ele conheceu a horta quando se mudou para o bairro e comprava verduras lá. Percebeu que os canteiros estavam precisando de cuidados e passou a ajudar. Sua rotina diária, desde então, começa ás 6h da manhã e segue até as 11h, o horário de seu merecido almoço.


Com saúde de jovem, dá sua lição para se chegar assim aos 84 anos: "Não pode fazer muita extravagância, nunca perdi uma noite de sono, até hoje 5h da manhã eu acordo, sem despertador". Ele ainda aconselha dormir bem, não beber ou fumar e nem comer demais (Foto: Lívia Reginato)


Dino de Matos, morador do bairro há 34 anos, fala sobre a horta: "Faz, mais ou menos, uns 8 anos que eu compro aqui. A importância da horta para o bairro é a qualidade e preço, para você ver, eu compro 1 ou 2 reais, e compro almeirão, cheiro-verde, outra verdura qualquer que se você for na feira ou no mercado é o triplo do preço. Então, a horta para os moradores é super importante, mesmo porque a gente vê o cuidado que eles têm, como eles zelam, como eles fazem... E também tem até o fator nutritivo, temos uma alimentação melhor". Dino faz questão de frisar: "Se não tivesse ela, para mim e para o bairro seria mais difícil ter uma alimentação mais saudável". Comprar na horta, é, segundo ele, um hábito de família: "Quando não é eu que venho, é meu pai ou meu irmão".

 
Selma, moradora do bairro, comenta: "Todos os bairros deveriam ter uma dessa, outro dia veio uma mulher do Vista Alegre comprar aqui, porque lá não tem" (Foto: Lívia Reginato)


Selma Armati, que mora na rua de baixo da horta, diz: "É muito importante porque aqui é tudo sem agrotóxico, tudo limpinho, eu venho direto e compro pouquinho, para vir buscar dia sim, dia não" e "é muito boa essa horta, faz 36 anos que eu moro aqui". Ela brinca: "O seu Mário é o que o mais trabalha", ao que seu Mário rebate: "Eu não sou melhor que os outros não, eu só faço com amor". "É muito bom, gente! Sempre verdura fresquinha, sempre bonita!", a moradora festeja com um sorriso ao exibir na mão um grande ramo de almeirão.

Vila Independência é um pedaço do Japão em Bauru

Delimitada pelas ruas Felicíssimo Antônio Pereira e avenida Castelo Branco, a Vila Independência tem diferentes aspectos culturais


Daniele Fernandes
Mariana Cajado
Marina Debrino

Thábata Lima


Sede da Igreja Tenrikyo em Bauru fica bem no centro da Independência
(Foto: Daniele Fernandes)
 

Imigrantes japoneses, em busca de condições favoráveis para suas plantações, encontraram nas abundantes águas do córrego Água do Sobrado um lugar ideal para se instalarem, segundo historiadores. Em 1931, tem início a fundação da Vila Independência. Tradicional na cidade, o bairro residencial se mantém autônomo com a economia estruturada no comércio. A população local tem acesso a escolas públicas, postos de saúde, e vibra com o Indepa, o tradicional time de futebol amador do bairro e a recém criada Escola de Samba da Vila Independência. "O pessoal gosta e a molecada mais nova é bem entrosada nessas coisas", afirma Fernanda Arieta, presidente da Associação de Moradores do bairro. Ela conta que a entidade promove cursos profissionalizantes, aulas de ginástica, capoeira e festas para a comunidade – sendo o baile da terceira idade, realizado semanalmente há mais de 30 anos, o mais conhecido e frequentado.

 
Inscrições em japonês na entrada da Igreja Tenrikyo (Foto: Daniele Fernandes)

 
Mesmo com o desenvolvimento do bairro, a cultura japonesa não se perdeu. Mostra-se presente em restaurantes, comércios e, principalmente, na religião. A Sede Brasileira do Templo Tenrikyo foi construída em Bauru com o esforço e dedicação dos seus fiéis no ano de 1951. O terreno foi cedido pelo reverendo Chujiru Otake, superintendente do missionamento no Brasil. Todas os templos têm sua estrutura construída em direção à sede mundial que fica na cidade de Tenri, no Japão.
 
 
Missionário Almir Massuda segue a religião desde o seu nascimento. Ele explica que a Tenrikyo está aberta a todos, e não só à comunidade japonesa (Foto: Daniele Fernandes)

 
O missionário Almir Massuda conta que a religião não descende de outras e foi originada a partir dos ensinamentos recebidos de Deus por Miki Nakayama, chamada de Oyassama ou Grande Mãe, que viveu uma vida considerada modelo por 50 anos. Os seguidores acreditam no Deus Parens, o qual engloba as figuras paterna e materna. Massuda explica a crença num retorno do espírito e não na morte da maneira ocidental, sendo o corpo físico emprestado para a evolução do ser. "Precisamos rezar para limpar as poeiras espirituais, ou seja, sentimentos e atos ruins, que nos impedem de sermos felizes", completa. De acordo com ele, os ensinamentos pregam que, para o crescimento espiritual, deve-se seguir a vida modelo de Oyassama sempre buscando fazer o bem ao próximo. Ele também destaca que é essencial o culto aos antepassados, à Grande Mãe e ao Deus Parens, além de acreditar que os problemas são consequências de más ações e devem ser encarados a fim de se evoluir.

 

Jardim oriental que representa um pouco do Japão no bairro (Foto: Daniele Fernandes)
 
 
"Nós realizamos orações diárias, às seis da manhã e da tarde e, em todo segundo domingo do mês, fazemos uma grande celebração da qual todos os dirigentes e fiéis dos outros templos participam", conta Massuda, destacando que qualquer pessoa pode se tornar um missionário, mas para isso deve passar por processos de aprendizados sobre os ensinamentos e dogmas e ir ao Japão para completar a formação.

Vila D'Aro, Vila Giunta, Parque Fortaleza… É tudo Independência!

Comércio da Castelo Branco se divide entre as melhorias feitas pela prefeitura e problemas econômicos ou de violência. Bem abastecida de postos médicos e linhas de ônibus, a região sente falta de policiamento e de estabilidade econômica

 
Fabrício Furlan Innocencio
Lucas Altimari Piccolo
Samir Bueno Abdalla
 

Placa no início da avenida Castelo Branco (Foto: Samir Abdalla)

 
O comércio popular é atividade notória da avenida Castelo Branco, via importantíssima de Bauru, que corta a Vila Independência. Quem passa por lá nota o grande movimento de carros e ônibus, o que favorece em muito a atividade comercial da área. Para acompanhar o desenvolvimento comercial das proximidades, a prefeitura vem investindo em melhorias na saúde e nos transportes públicos.
 

Em horários de pico, esse trecho está sempre congestionado (Foto: Samir Abdalla)
 
 
Logo no começo, encontra-se a bicicletaria Bike Sport, do experiente Amauri, 61 anos. O estabelecimento é muito conhecido por toda a redondeza, devido às suas “bicicletas diferenciadas”, como define o próprio Amauri. Há mais de vinte anos situada no começo da avenida Castelo Branco, a bicicletaria é a única do tipo que mantém as portas abertas já há bastante tempo.

 
Uma das "modificações" de Amauri (Foto: Samir Abdalla)
 
 
Diferentemente da bicicletaria, os outros comércios da avenida enfrentam queda nas vendas: “É assim mesmo. Mexe no bolso do consumidor, ele vai procurar o medicamento mais barato, deixa de comprar outros…”, reflete Ramiro, 38 anos, dono de uma farmácia. Assim como ele, Cristina, proprietária da padaria Pan Belle há 24 anos, fala sobre a queda nas vendas. Ao ser perguntada sobre a situação atual, responde: “É a Dilminha, né? Porque se aumenta o preço da farinha, tudo fica mais caro, e o pessoal compra menos”. “A última vez que vivemos algo assim foi com o Collor”, lembra Cristina.

Além da queda nas vendas, os proprietários reclamam da falta de policiamento na região. O número de assaltos vem crescendo muito. Segundo os comerciantes, as rondas policiais são escassas, o que abre espaço para os criminosos atuarem. Tanto Ramiro quanto Cristina se veem obrigados a investir em segurança privada. Miriam, 46 anos, funcionária da loja de peixes e animais marinhos Aquamundi, afirma que o estabelecimento já fora assaltado durante uma madrugada.
 
 
Peixes em um aquário da AquaMundi (Foto: Samir Abdalla)


Mesmo com os problemas enfrentados pelo comércio, a avenida Castelo Branco se mantém forte nessa atividade. A proximidade com o centro da cidade é fator positivo, como considera Ivo, 61 anos, dono da Companhia dos Pisos, e os investimentos públicos são reconhecidos pelos proprietários. É notável a melhoria nos serviços de saúde e na infraestrutura do bairro. A Unidade de Pronto Atendimento, inaugurada há alguns anos, é muito elogiada pelos moradores. “Hoje em dia está muito melhor. Há uns três anos, eu não diria isso”, avalia Miriam.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Uma parte à parte de Bauru

A Vila Falcão muitas vezes é vista como uma outra cidade dentro de Bauru


Larissa Caliari
Isabela Holl
Juliana Gonzalez
 
Sede onde funciona a subprefeitura regional da Vila Falcão (Foto: Larissa Caliari)


A Vila Falcão é um dos bairros mais antigos de Bauru, nasceu como um aglomerado de casas próximo à linha do trem e não era integrado à cidade. Para que a população não precisasse se deslocar até a cidade com muita frequência, desenvolveu-se um grande setor comercial, que ainda hoje continua sendo a principal atividade econômica da Vila. Além disso, o bairro é autônomo no que se refere aos serviços prestados à população, já que tem postos de saúde, agências bancárias, áreas de lazer e demais atividades essenciais.

Apesar de não faltar serviços para a população, esses equipamentos urbanos não são muito bem distribuídos. De acordo com Letícia Sartori, moradora do bairro, existem algumas discrepâncias em algumas áreas, como por exemplo na rua Bernardino de Campos. Por essa rua passam vários ônibus e a iluminação é ótima, mas não é asfaltada a partir de certo ponto. Letícia Sartori também conta que alguns lugares não são seguros para caminhar durante a noite, por falta de iluminação nas ruas.


A Biblioteca Ramal atende a população do bairro, principalmente jovens estudantes
(Foto: Larissa Caliari)


A biblioteca do bairro fica ao lado da Subprefeitura da Vila Falcão (Foto: Larissa Caliari)


No bairro há várias opções de atividades culturais e esportivas. Há a Biblioteca Ramal, que se localiza junto com a Subprefeitura e é aberta ao público para a visitação e para o empréstimo de livros. Também tem o estádio distrital (Padilhão), a quadra sede da escola de samba Mocidade, que foi campeã várias vezes do carnaval bauruense, e o estádio do Noroeste (time de futebol profissional de Bauru). Além disso, o bairro conta com quadras, academias ao ar livre, praças e a tradicional quermesse que acontece todos os anos na Paróquia São Benedito. Essa festa atrai a população da cidade toda.

Existe um sentimento de pertencimento por parte dos moradores com relação ao bairro. A população da Vila Falcão tem orgulho de morar lá. Isso se deve principalmente ao histórico da antiga escola de samba Mocidade, que foi vencedora muitas vezes e desenvolveu uma certa rivalidade com a escola Camisa Dez, do bairro Bela Vista. Segundo Daniel, secretário da subprefeitura da Vila Falcão que já morou nos dois bairros, também há uma "rixa" com relação aos times de futebol desses bairros.

A população da cidade de Bauru e as de outras cidades da região também fazem o movimento da Vila Falcão. As pessoas são atraídas, na maiorias das vezes, pelo Hospital Manoel de Abreu, e pelos estádios, tanto o Estádio Padilhão, onde ocorrem os campeonatos amadores de futebol, quanto o Estádio Alfredo de Castilho, o maior da cidade.

Bosque do Parque União é reinaugurado 

Sendo parte do bairro Bela Vista, o parque foi reaberto aos moradores após um longo período de abandono


Amanda de Assis Araújo
Beatriz Berto Milanez
Mariana Carneiro Soares 

Local voltou a funcionar no dia do aniversário do morador que ajudou a recuperá-lo 
(Foto: Mariana Soares)


O Bosque “Eliseu Victor Fornetti” foi inaugurado, inicialmente, em 1993, pelo então prefeito de Bauru Antônio Tidei de Lima. Entretanto, a má conservação e catástrofes naturais, como o elevado volume de chuvas, destruíram o bosque do Parque União. Mas, neste ano, o ponto de encontro foi reinaugurado com sucesso, atendendo à vontade da população local. 

Foi em 1998 que Antonio Carlos Yamashita, morador de longa data do bairro Bela Vista, também vice-presidente do Conselho de Segurança local, resolveu lutar por melhorias no bosque. Yamashita é filho de um dos fundadores do bairro e, por isso, sente grande apreço pelo espaço e sempre se dispõe a ajudar. “Fizemos o projeto do parque e conseguimos arrecadar uma boa quantia na época, aí construímos as calçadas do bosque. Não existe outro bosque igual em Bauru. A mata é nativa, só na parte de cima que plantamos. Eu até entrei com uma ação – e ganhei – para coletar o esgoto que ia para o córrego”, explica satisfeito Yamashita. 

Depois de passar algum tempo sendo lixão e oferecendo perigo aos frequentadores, os moradores fizeram um abaixo-assinado para recuperar o bosque, que logo foi atendido. Após três anos de obras, houve a reinauguração no mesmo dia do aniversário de Antônio Carlos Yamashita, como uma homenagem. O morador conta que as considerações não foram só para ele: “Tivemos a ideia de colocar uma placa com os nomes dos moradores do bairro, porque todo mundo que ficou aqui e fez a sua casinha, continuou por aqui, acreditou no bairro. O lugar era um abismo. Era horrível. E nunca lembravam das pessoas que lutaram por isso aqui. Meu pai foi um dos fundadores daqui, então foi uma homenagem que nós fizemos para todos”. 


Moradores aproveitam as instalações nos momentos de lazer (Foto: Mariana Soares)


Além do mais, o Bela Vista é considerado o quarto bairro mais antigo de Bauru. Foi formado por trabalhadores que estavam construindo a ferrovia Noroeste, por volta da década de 1950. Com o decorrer do tempo, o acesso ao bairro deixou de ser feito somente via ferrovia. No entanto, os moradores ainda enfrentavam problemas com as ruas de terra, por exemplo, em dias de chuva não era possível chegar ao Bela Vista. Com a construção do viaduto Juscelino Kubitschek e da Nações Norte, além do novo viaduto inaugurado em 2015, o acesso foi facilitado e a região, mais valorizada. 

“O Bela Vista é visto como uma mini cidade”, explica a administradora regional do bairro, Vera Lúcia, “tem supermercado, tem farmácia, tem lojas, tem oficinas mecânicas e tem até a TV TEM”. Em questão de segurança, o bairro conta com uma base policial localizada na rua Pinheiro Machado. Por esse e outros motivos, o índice de criminalidade na região é baixo. 


Moradores aguardam atendimento na Unidade de Pronto Atendimento do Bela Vista
(Foto: Mariana Soares)


O bairro também conta com uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), construída para substituir o extinto hospital e, segundo Yamashita, “é ótima”. Inúmeras escolas e creches atendem a grande demanda de crianças e adolescentes do Bela Vista. 


Vera Lúcia, administradora regional do bairro, e Antonio Carlos Yamashita, antigo morador e vice-presidente do conselho de segurança local (Foto: Mariana Soares)